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Meu poeta no armário

Por esses dias naqueles passeios pela livraria, me deparei com um livro pequeno e muito grande em seu título chamativo: Vamos comprar um poeta, de Afonso Cruz, escritor português, editora Dublinense.


O livro fala sobre uma sociedade dominada pelo materialismo e as famílias têm artistas em vez de animais de estimação. Cada espaço do ambiente e do mundo tem um patrocinador, tudo é medido e calculado com exatidão e como diz a sinopse da capa, até a troca dos afetos é contabilizada.


O livro fala de uma menina que pede para o pai um poeta. O poeta, ao passar a morar em casa, debaixo da escada, começa a jogar luz sobre o utilitarismo, sobre o materialismo.


É uma sociedade distópica. Mas, será que essa distopia não nos afeta desde agora? Eu mesmo já posei de poeta na minha juventude. As poesias estão gravadas em jornais amarelados e papéis velhos e algumas reproduzidas nesse blog. Mas, faz tempo que não faço poemas. Procuro compensar desenvolvendo uma escrita poética em meus textos, romances.


Hoje, se somos pegos divagando, sonhando, voando como dizem, ao voltarmos a terra, somos aconselhados a procurar ajuda médica, um psiquiatra, ver esse TDHA, tomar medicação para prestar mais atenção, manter o foco.


Mas, e se for o poeta guardado em meu armário que está se manifestando, querendo romper as barreiras e se manifestar em um mundo materialista, medido em minutos, avaliado em likes, comentários e curtidas. Onde a própria poesia é mercantilizada, a crônica é limitada em 20 linhas para caber no espaço entre as propagandas do jornal e a escrita poética em um romance é tida como uma curiosidade ou excentricidade do autor.


Vamos comprar um poeta é um livro muito divertido, reflexivo e um alerta ao modo como nos comportamos em nosso dia a dia, em nossa vida. Um manifesto contra o neoliberalismo que nos reduz a números e valores, a meritocracias e comparações.


A poesia nas empresas se tornou inteligência emocional para os coaches. A poesia grafitada nos muros, viadutos e paredes, uma pichação e poluição visual. A poesia na política, onde uma política pública é pensada no bem-estar humano, se transformou em papo de comunista, em atentado ao Estado mínimo. A poesia nos relacionamentos se reduziu às redes sociais, ao amor virtual. Não se enviam flores e bombons de surpresa. Até as flores e bombons são encomendas obrigatórias das datas especiais, motivo de lucro para o comerciante e motivo de likes no instagram para quem recebe.

A cordialidade e o bom trato é coisa de gente fraca, que não irá sobreviver na competição despoética desse mundo. A pregação da paz é apocalíptica pelos fanáticos e despropositada pelos que comercializam armas e munições.


Gostei muito do Vamos comprar um poeta. Uma ótima sacada do autor. Uma análise brilhante e muito necessária. Um alerta para o que estamos fazendo com aquele poeta que esquecemos em nosso armário, sufocado por pilhas de sapatos, roupas e cobertores.



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