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O PÊNDULO

Atualizado: 7 de out. de 2021


O PÊNDULO

(Uma tarde de abril)

Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar. Fez isso enquanto tirávamos a mesa.*

Imediatamente, pensei em Roger.

Há uns trinta dias começamos a conversar por mensagens no celular. Paixão antiga e secreta do ensino médio. Ele ainda muito bonito, casado e reclamando demais da esposa.

- Ah, ela não é como você. Com ela não consigo me abrir.

Logo passamos a nos falar todo dia e, com muita culpa, me peguei pensando nele diversas vezes.

Era para estar planejando minhas bodas de prata e não pensando num amor colegial.

- Eu conheço ela?

Não respondeu e subiu.

Olho para o celular. Roger não está on line. O que ele me diria nessa hora? Talvez invejasse a sorte de se livrar da mulher.

O celular! Será que o João Paulo viu meu celular?

Vou atrás dele. Está separando suas roupas. Não tem nenhuma camisa que não tenha sido eu que escolhi para ele.

-João, espera aí, não estou entendendo, o que está acontecendo?

- Acredite, vai ser melhor assim, Janete.

- Os nossos filhos estão morando fora, na faculdade. Vou ficar muito sozinha.

- Não vai, não.

João continua separando suas camisas. Não olha pra mim. Em seguida, vai à procura de uma mala, uma bolsa.

-Não se termina um casamento assim, João!

-Já acabou faz tempo, não é?

-Vamos conversar. O que nossa família não vai pensar?

-Você não vai passar vergonha, não se preocupe.

Sempre me orgulhei muito de sermos considerados o casal modelo da família. Os que dão exemplo de união, parceria. Os bem sucedidos da família.

-A Janete que se deu bem no casamento.

-Com um partido desse, eu faria tudo por esse homem.

Minhas irmãs invejosas nunca esconderam que consideravam que eu tinha ganho na loteria ao me casar com João Paulo. Boa pinta, empresário e muito organizado.

E para esse homem não faltavam receitas novas de doces, bolos e pratos bacanas. Para esse homem fazia questão de deixar a casa muito bem arrumada para quando ele chegasse. Para esse homem eu sempre o esperava já de banho tomado. Para esse homem eu me esforçava em mostrar interesse em saber como foi o dia de trabalho dele.

-João, desde quando você anda pensando em ir embora?

-Não muito tempo.

Para mim as coisas vinham bem como sempre foram. As férias anuais na praia ou na Disney, o jantar das sextas-feiras, a missa de domingo.

Onde foi que eu errei? Ele só pode ter ficado sabendo do Roger. Mas, não fizemos nada de mais, nem nos vimos, apenas trocamos mensagens bobas.

-Eu te decepcionei em alguma coisa, João?

-Não se rebaixe, Janete.

-Mas eu preciso saber. Tudo que faço é pra agradar você.

A essa altura, algumas lágrimas já começam a cair. Ele me olha muito rapidamente, mas não consegue me encarar.

Tento segurar seu braço, procurar um apoio, ter certeza de que é verdade o que está acontecendo.

-Não dificulte as coisas, Janete. Seja mais madura.

Ele me dá as costas, pega uma das malas e desce as escadas. Parece que está com pressa.

-João, temos uma história. Quase 25 anos! Podemos consertar as coisas.

-Não quero escândalo. Já decidi, é o melhor pra nós.

Tento me conter. Sei que ele se refere aos vizinhos do condomínio. Já basta o barraco que sempre acontece na casa da frente. Mas, escândalo mesmo vai ser quando souberem que fui largada pelo marido.

Nunca percebi nada de diferente no comportamento dele. Sempre do mesmo jeito. Todo dia. Regular e previsível como o relógio da sala. E nesse relógio eu sempre fui o pêndulo que o seguia em todas as horas.

Sem as horas do meu dia, eu iria só bater cabeça nas paredes agora.

Ele só pode ter descoberto sobre o Roger. Roger deve ter falado de mim a alguém e esse alguém deve ser um amigo em comum entre eles. No futebol, só pode ser isso.

-João, você está magoado comigo? Eu fiz alguma coisa que não te agradou?

Ele está subindo agora para pegar a bolsa onde colocou seus sapatos. Ainda abre o closet à procura de mais alguma coisa.

-Me responda, João. Você deve estar brincando, não é?

Ele pega o par de chuteiras, que deixei bem limpas desde o último jogo da quarta à noite, ele sequer percebe o brilho do cuidado e coloca num saco de pano.

-Seu marido jogando bola e a gente lembrando nossas sacanagens daquele tempo.

Fico desesperada em lembrar que na quarta à noite nos excedemos um pouco nas conversas e flertes com Roger. Ríamos de nós mesmos, das nossas vidas tão equilibradas e monótonas que tínhamos. Sobre o que a vida nos fez.

-Você reclama da sua Cláudia, mas eu me dou bem com o João Paulo.

-Você pensa que se dá bem.

-Como assim?

-Ah, Janete! Estamos prestes a marcar um encontro e você vem com essa?

Foi aí que saí da conversa, desliguei e desde então não o procurei mais. Só ficava olhando o que ele postava, curtia o que ele estava fazendo, dando joinha em suas mensagens motivacionais dos inícios dos dias. Era até onde eu podia chegar.

E, agora, vendo meu marido indo embora, nessa tarde sem sol, ele subindo e descendo a escada cada vez mais interminável, o nosso quarto ficando cada vez mais longe, não me via fazendo sacanagens com o antigo namorado.

Nem com o João Paulo fiz alguma sacanagem. Sempre tudo certinho, papai e mamãe. Os filhos super educados, bem vestidos. Eu mesma levando e buscando na porta da escola. Toda noite um jantarzinho simples e todo domingo o almoço especial que ele gosta.

Perdendo o meu controle, me coloco na frente dele, no lugar da porta aberta da sala.

-João, vamos conversar.

-Janete, me deixa passar.

-Não tem sentido você ir embora assim.

-Por favor. Está decidido. Me deixa passar.

-João, eu não vou agüentar isso. E sem ao menos saber o que fizemos de errado.

-Você sabe o que deu errado. Preciso ir, Janete.

-Tá bem, tá bem, o Roger foi um erro, me perdoe. Mas não teve nada demais, me perdoe! E as lágrimas escorrem, arrastando maquiagem e saliva, meu cabelo na boca e o nariz escorrendo para me deixar mais feia.

- Roger? Como assim, Roger?

Nesse segundo da badalada das quatro horas eu retiro os braços do batente da porta e cubro meu rosto da vergonha. João consegue passar e colocar a última bagagem no carro.

Ele já está dando a partida. Os soluços me empurram para a janela do carro, bato no vidro com força, João!, João!

Ele abaixa o vidro, finalmente enxergo o seu olhar de superioridade e ouço o que eu mais temia, antes de ele sair em disparada:

- Verônica. O nome dela é Verônica.


PS * - A introdução é trecho do livro da Elena Ferrante e era o tema do concurso proposto

pelo Desafio do Carreira Literária.

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