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SAPATO VELHO

Meu amo comprou um par de sapatos novos. Fui jogado ao fundo do armário para dar espaço a dois bicudos finos lustrosos. São pretos como o escuro desse lugar, mas, ainda assim, brilham com aquele enfeite de metal colado na lateral.

Ontem, meu amo pegou aqueles dois. Logo pôs de volta, cheios de papel jornal. Esses aí se acham os novos donos do pedaço, mas já vi que não conhecem o calo do pé esquerdo do meu amo. Até ontem falavam fino aqui dentro, agora estão engasgados em jornal. Que aproveitem as notícias, se encham delas.

É em mim que os pés do amo calçam bem. Confortavelmente. Nem preciso mais de caixas de sapato, meu amo tem liberdade para me pegar a qualquer momento, sem frescura de ter que ficar abrindo caixa, tirando papel de seda. Passando graxa!

Esses bicudos talvez sirvam para vestir um defunto. Combinariam muito bem com o bico pra cima, apontado pra viúva. Mas, não nos pés do meu amo. Esses sapatos de grife não levam ninguém para uma vida de aventuras. Só levam para uma vida de aparências. E se acham.

Esses sapatos novos não sabem onde meu amo pisa, para onde ele gosta de caminhar, quem ele espera sempre encontrar. Eles pensam que podem levar meu amo a lugares importantes, mas mal sabem os caminhos por onde eu e meu amo já passamos.

No começo da semana, por exemplo, no passeio da manhã, o cachorro do amo se engraçou com uma Lulu. Ficaram naquela cheiração incoveniente por uns segundos. Enquanto eu escondia minha sola descolada daquele par de sandálias elegantes à minha frente, em tom de verde combinando com o gramado da praça, meu amo puxou alguma conversa com a moça bonita dona da Lulu.

Não vi o rosto da moça. Mas seus pés sinuosos, dedinho pra cima, calcanhar liso e um dorso sexy apontavam para a direção de um belo par de pernas compridas, lisas e sem pêlos. Tentei ver até onde elas iam e tinha bastante perna, joelhos e coxas para ver. A manhã estava quente mesmo pelo jeito.

Naquele calor que subia da calçada, a Lulu escapou das mãos da moça. Meu amo, muito prestativo, correu para pegar a cadelinha, tropeçou numa pedra, meu amigo do lado direito se perdeu pelo caminho, mas, mesmo assim, com um pé só nós alcançamos a luluzinha, meu amo a carregou no colo e a moça agradeceu com um muito obrigada! e meu amo deve ter recebido um beijo no rosto por isso.

Eu sou testemunha do encontro. Meu amo, sempre tão triste e solitário, de repente ficou sorridente e dando para cantarolar canções alegres. Se aquele par de sandálias não saem do meu couro surrado, quanto mais aquelas pernas compridas devem fazer meu amo sonhar.

Por isso, nessa noite em que meu amo marcou o primeiro encontro com a moça bonita, vou poder desforrar desses bicudos finos. Certamente, serão deixados na caixa entupidos de jornal enquanto eu estarei debaixo de uma mesa de jantar no meu encontro com aquele parzinho de sandálias marotos que parecem deixar nus os pés daquela moça do jardim.


Gilberto Hackmann

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