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O JOGO DO GAMÃO

  • Foto do escritor: ghackmann
    ghackmann
  • 13 de jul.
  • 3 min de leitura

Há muito tempo eu joguei gamão. Foi uma vez só. Gostei muito. Nunca mais joguei e sequer me lembro das regras. Só me lembro que gostei muito.

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Tenho dificuldade de sair da rotina ou do meu dia a dia. Daquilo que vivo, conheço e me dá segurança. Os dias passam como rituais, uma missa que se repete do começo ao fim, sem mudanças, sem variações, sem imprevistos.

Não são poucas as vezes em que desvio o caminho, encurto ou acelero os passos para evitar um encontro que me forçará a conversar ou a me deparar com um grupo ou ambiente que me deixa desconfortável. Se me pego envolto em uma rodinha de conversas banais ou descontraídas, sempre acabo dando um jeito de sair discretamente.

Para, muitas vezes, seguir a esmo ou voltar para dentro de mim.

Aquele jogo de gamão apareceu como um convite inescapável. Não me lembro quem me convidou, muito menos o que esse alguém fez para me convencer a jogar. Mas, a sensação de contentamento e diversão com o jogo ficou para sempre. Porém, não se tornou um hábito jogar gamão. Não pensei em comprar um tabuleiro ou participar de torneios.

Como assistir a um show de um artista famoso. Achar maravilhoso, um espetáculo. Mas nunca mais voltar para assistir a outro. Como brincar de dar banho de mangueira nas crianças e não mais repetir a alegria, até que, um dia, elas crescem e a guerra de mangueiras se torna sem sentido.

Às vezes, visito um lugar ou um restaurante legal. A comida é muito boa, o atendimento ótimo e o ambiente convidativo. Tempos depois, ao revisitar, o restaurante continua ali, as mesas e a decoração, o ambiente é praticamente o mesmo, mas aquela primeira sensação de alegria e prazer não vem junto.

Parece que o encontro com a lembrança não traz a mesma memória.

Eu esqueci completamente as regras daquele jogo de gamão que eu gostei muito. Talvez não se tenha muitas regras para gostar de algo diferente ou viver uma situação inusitada ou marcante. A regra é o inesperado, a casualidade, a surpresa, o pegar desprevenido.

Vejo conhecidos que a cada fim de semana estão em um lugar diferente, um passeio, uma viagem, uma aventura. Tem aqueles que passam a viver assim após um luto ou uma separação. É quando a comodidade perde sua utilidade e o que era cômodo se torna desconfortável.

Agora, no avançar dos anos, muito aos poucos, tenho me deixado seduzir para um tanto de novidade, em doses homeopáticas. Os livros têm me forçado um pouco a isso também. Para divulgá-los, preciso conhecer gente, conversar, me expor, visitar lugares, sair.

São momentos prazerosos como jogar gamão uma única vez na vida. Mas, sinto que esses momentos ficam guardados junto com o tabuleiro e as pedras do gamão. Em um lugar desconhecido, incerto e duvidoso.

Talvez se eu tivesse um jogo de gamão em casa, ele ficasse guardado sobre o guarda-roupa ou debaixo da escada. O pó cobriria a sua caixa e eu me lembraria dele apenas quando tivesse que fazer uma reforma na casa ou alguém, de súbito, aparecesse para uma faxina geral e pesada nos locais inacessíveis da casa.

Talvez não tivesse com quem jogar. Talvez jogasse e o sentimento jamais seria o mesmo daquela vez. Talvez detestasse gamão. Talvez me apaixonasse e começasse a disputar campeonatos. Mas, eu seria envolvido pelo jogo. Nunca mais aquela primeira emoção voltaria com o mesmo impacto que deixou marcas e boas sensações.

Hoje o dia está frio. Nublado. Um resfriado chama as cobertas e um café quente. A lembrança daquele jogo de gamão surgiu do nada. Ainda me lembro da alegria e do contentamento. Lembro que gostei muito. Mas esqueci as regras.

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